"eu retribuo a dádiva do amor,
ainda que eu não saiba como expressa-la."

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poema em Linha Reta (por Osmar Prado)

"Cena da novela "O Clone", de 2002, onde o ator Osmar Prado utiliza trechos do poema e o adapta às contestações de sua personagem, um alcoólatra que foi flagrado bebendo em seu trabalho. 
Poema em Linha Reta é a autocrítica de um homem que se confessa irresponsável, mas com profunda e solitária responsabilidade sobre sua fragilidade moral."


Poema em Linha Reta 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 
 
(Fernando Pessoa)
Um pouco mais sobre: Fernando Pessoa

Grace - Jeff Buckley


Antes de integrar o obscuro Gods and Monsters, Buckley tocou em outras bandas de jazz, rock e punk. Não chegou a gravar com o Gods e partiu para carreira-solo quando o grupo estava prestes a assinar contrato com uma gravadora. No entanto, Buckley só teve a oportunidade de lançar um solitário álbum-solo de estúdio em vida, o mitológico Grace (1994), que não foi bem-sucedido comercialmente. Viveu o dilema de não ser comercial o suficiente para tocar nas FMs nem pesado para supostamente cair no gosto do público indie. Houve quem o classificasse de ´celestial´ demais, mas o tempo fez clássicas suas interpretações para canções etéreas como Corpus Christi Carol, Lilac Wine e a insuperável versão de Hallelujah (Leonard Cohen), depois popularizada pela (também boa) gravação de Rufus Wainwright na trilha da animação Shrek. Não por acaso ambos mantêm certas semelhanças com a melancolia outonal de Nick Drake (1948-1974), que morreu de overdose. Não é à toa que Grace ganhou o atributo de único não pela condição isolada na carreira de Buckley, mas por representar uma ´gota cristalina num mar de ruído´, como disse Bono, do U2. Virou objeto de culto e também bateu fundo na sensibilidade de outros astros como Bob Dylan, Paul McCartney, Jimmy Page e o próprio Wainwright. É um dos grandes discos da década passada e ficou entre os 500 melhores de todos os tempos na lista da revista Rolling Stone. Nos três anos e meio que se seguiram, Buckley compôs várias canções que não foram finalizadas como ele queria. Chamou Tom Verlaine, do Television, para produzir o sucessor de Grace, mas não gostou do resultado. Só que não teve tempo de retrabalhar as canções, que estão num de seus álbuns póstumos Sketches for ´My Sweetheart the Drunk´ (1998). Apesar do material inacabado, ainda assim é uma boa amostra do que poderia ser. O brilho de sua música acabou ofuscado pela morte trágica, por afogamento, na marina do Rio Wolf, em Memphis (Tennessee), no dia 29 de maio de 1997. Criou-se em torno disso uma aura de ´mistério´ desmentida veementemente por sua mãe, Mary Guibert. A morte foi acidental (ele estava nadando), não teve nada que ver com drogas, álcool, suicídio ou qualquer outro combustível para um escândalo cinematográfico. Jeff conviveu pouco com seu pai, apenas por uma semana. E esse tempo foi suficiente para mexer com sua cabeça. Tim abandonou Mary logo depois que ela deu à luz e, com um histórico de infância conturbada, o filho relutou muito em cantar, por medo de comparação com o pai. Por uma daquelas incríveis coincidências, Tim também gravou pouco e virou lenda. Morreu de overdose em 1975 aos 28 anos. Quando se afogou, Jeff tinha 30.

Fonte: Texto Original

domingo, 13 de novembro de 2016

Mudar é Preciso - Charles Chaplin

"Chorar não resolve, falar pouco é uma virtude, aprender a se colocar em primeiro lugar não é egoísmo, e o que não mata com certeza fortalece. Às vezes mudar é preciso, nem tudo vai ser como você quer, a vida continua. Pra qualquer escolha se segue alguma conseqüência, vontades efêmeras não valem a pena, quem faz uma vez não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze. Perdoar é nobre, esquecer é quase impossível. Nem todo mundo é tão legal assim, e de perto ninguém é normal. Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente, não é preciso perder pra aprender a dar valor e os amigos ainda se contam nos dedos. Aos poucos você percebe o que vale a pena, o que se deve guardar pro resto da vida, e o que nunca deveria ter entrado nela. Não tem como esconder a verdade, nem tem como enterrar o passado, o tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos. Não fique preocupado, você nunca sabe quem está se apaixonando pelo seu sorriso."

(Charles Chaplin)