"eu retribuo a dádiva do amor,
ainda que eu não saiba como expressa-la."

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Os Milagres do Cotidiano (Roberta Martinelli entrevista Criolo - Cultura Livre)

No dia 21 de dezembro de 2013, o Cultura Livre, da TV Cultura, disponibilizou vídeo com entrevista exclusiva com o Criolo, conduzida pela Roberta Mantineli.

Em pouco mais de 30 minutos, o rapper iniciou fazendo um balanço da sua carreira que vai chegar em breve aos 25 anos; não podia, obviamente, deixar de falar sobre o seu trabalho mais aclamado, o disco “Nó na orelha”, lançado em 2011.

Além de exaltar todos os músicos ao seu redor que lhe ajudam no dia a dia das apresentações, Criolo também destacou muito a importância da arte não só na sua vida, mas para o mundo.

Como sempre, o rapper dá suas respostas da forma mais profunda possível e parece deixar até a entrevistadora emocionada. Entre tantas mensagens e conselhos, Criolo finaliza a entrevista com um que se destaca.
"Todo mundo é especial. Resumindo, Roberta, todo mundo é especial. E nos tomaram o sol. Roubaram o sol das nossas vidas e aí inventaram um caminho pra nos usarem pra dizer que a gente tem que correr pra ter um lugar ao sol."







Postado Originalmente em: Vai Ser Rimando
Site: Cultura Livre

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O Pássaro Azul - Charles Bukowski

O poema de Charles Bukowski, O Pássaro Azul, originalmente publicado na sua antologia de 1992 The Last Night of the Earth Poems, é uma meditação sutilmente profunda sobre uma faceta da condição humana que conhecemos muito bem. A compulsão, os vícios, o resultado de uma solidão que corrói diariamente, é a isso tudo que Bukowski consegue se referir – ou melhor, trazer à tona – com o seu poema.

O pássaro azul se mostra como a pureza que buscamos preservar na gaiola, proteger um dos sentimentos mais nobres diante de um mundo corrompido. Essa beleza pura, talvez o ímpeto que move o escritor a criar, pede para se mostrar, mas não é revelado pelo poeta, o qual se encontra à mercê das ofertas ambíguas do mundo. Na hora em que se deita e está sozinho, é na companhia desse pássaro guardado em si mesmo, que o poeta parece se recompor. Pelo menos um pouco, para suportar a dor e o desespero que existe sempre no dia seguinte.


O Pássaro Azul


 há um pássaro azul em meu peito que

quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

(in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.)


Postagem Original: Notaterapia

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Via Láctea - Soneto XIII - Olavo Bilac (por Paulo Autran)


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(Olavo Bilac)